Segurança em T.I. - Governo quer
estimular "código-aberto".
12/08/03
Governo quer usar e difundir para a população programas de computador "genéricos"
(Agência Brasil - ABr) - Num mercado
que movimenta US$ 8 bilhões por ano, um gigantesco cliente tem R$ 5 bilhões para gastar nos próximos anos e quer assegurar o direito de decidir que produto vai comprar.
Tem à frente um fornecedor que, sozinho, domina o mercado mundial - em até 90%, com alguns produtos.
O governo federal iniciou este ano a discussão
sobre o uso de softwares livres, programas de computador "genéricos", como os remédios. Eles executam as mesmas tarefas que os programas "de marca", mas, como não
pagam royalties, ou direitos autorais, saem quase de graça para o usuário.
A medida pode ter repercussões muito além da máquina pública, porque, além
de usar em seus próprios computadores, a administração federal pretende iniciar a difusão por todo o Brasil de centros públicos de uso gratuito de computadores em rede,
com acesso à internet. E, seguida a meta inicial do plano, esses mais de mil centros de promoção da "inclusão digital", como se denomina a garantia de acesso aos
computadores e à internet, devem usar esses programas genéricos.
"É uma discussão ampla. Trata-se, na verdade, de uma decisão do modelo de
negócios que queremos para o Brasil", afirma Sérgio Amadeu, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), a autarquia que coordena todo esse
debate. Ele se refere à distinção entre a prática dominante no mercado de licenciar os seus produtos (é como se o cliente alugasse o software) e um novo perfil de empresa
que cobra pouco ou nada pelo programa e tem seus ganhos com a sua instalação e a manutenção.
Hoje, as empresas brasileiras de software abocanham
menos de 20% dos US$ 8 bilhões anuais que esse mercado movimenta. A maior fatia do bolo vai mesmo é para o exterior. Só em direitos autorais, são mais de US$ 1,2
bilhão anuais - o dobro do orçamento do Fome Zero federal. Para se ter uma idéia, o Brasil teria que duplicar suas exportações no setor para chegar a ocupar apenas 1%
do mercado mundial, estimado em mais de US$ 200 bilhões.
"É uma oportunidade muito grande para o país", comemora o empresário Márcio Ellery Girão
Barroso, diretor-presidente da Softex (Sociedade para Promoção da Excelência do Software Brasileiro). A entidade já iniciou um estudo para descobrir quanto a participação
nacional pode subir com essas novas diretrizes do governo, um cliente que faz a diferença entre a falência e a prosperidade de pequenos fornecedores . "As contratações
poderão ser divididas de forma muito mais ampla, baixando os preços e beneficiando centenas de empresas, em vez de apenas uma", exemplifica Barroso.
"Só esperamos que, além de uma política de utilização do software livre, o governo também estabeleça o incentivo ao desenvolvimento de novos
programas, para não asfixiar a indústria nacional. Temos que garantir um mercado local, uma base sólida para o setor também ser grande exportador", diz o engenheiro
Paulo Francisco de Vilhena Toledo, presidente da Brisa (Sociedade para o Desenvolvimento da Tecnologia da Informação), que congrega empresas do setor de informática e
eletrônica. Ele cobra uma definição da política de desenvolvimento tecnológico do novo governo: "É preciso investimento na inteligência brasileira. Hoje a balança comercial
no setor, entre equipamentos e software, registra um déficit de US$ 8 bilhões. Sem uma política adequada, esse número pode chegar a US$ 20 bilhões".
Decisão de governo
A discussão sobre tornar o uso dos programas genéricos uma decisão de governo é levada pela Câmara de
Implementação de Software Livre, um fórum coordenado pelo ITI com a participação de 30 órgãos do governo, entre ministérios e secretarias.
O gasto
com informática numa empresa comum se reduz em mais de 10% apenas com a eliminação das licenças. Sem falar na economia com manutenção, que pode passar a ser
feita na própria empresa, e com o próprio equipamento, já que o software livre costuma exigir máquinas bem menos potentes para funcionar. Nos telecentros da Prefeitura
de São Paulo (leia texto a seguir), a economia, apenas com o software, beira os R$ 15 milhões. Sem os programas, os 1,6 mil computadores para 80 unidades do projeto
custaram pouco mais de 10% desse valor.
Além do preço, há uma questão técnica crucial para os especialistas: os programas licenciados, em geral, não
permitem acesso ao chamado código-fonte, ou seja, o conjunto de instruções que o computador lê para executar o programa. Assim, quando há algum problema, a única
coisa a fazer é aguardar a chegada de um representante da empresa proprietária do programa. Só ele pode descobrir o que falhou.
Em sistemas de
precisão, onde um deslize pode ser fatal, como aeroportos, por exemplo, isso pode causar problemas. "Quando enviamos informação, precisamos ter certeza de que ela vai
chegar ao lugar certo, para a pessoa certa e para mais ninguém. O software livre nos permite essa segurança, porque temos pleno acesso a seu código", explica uma fonte
militar. As restrições orçamentárias também foram decisivas para setores da Marinha e da Aeronáutica iniciarem o uso de programas livres.
O ITI
promoveu em junho a 1ª Rodada de Compartilhamento de Software Livre na Administração Pública, onde se apresentaram 13 iniciativas diferentes, em curso em todos os
níveis de governo. De empresas de Processamento de Dados à Prefeitura da pequena Rio das Ostras (RJ), passando pela Marinha, o Banco do Brasil e o Instituto Nacional
de Meteorologia. "A idéia é caminhar para um consenso", diz o presidente do ITI.
A referência brasileira no uso do software livre na administração pública
é o Rio Grande do Sul (leia texto a seguir). Um dos responsáveis pela experiência, Rogério Santanna, responde hoje pela Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação
(SLTI), no Ministério do Planejamento. Santanna negocia atualmente a renovação das licenças para os softwares que equipam mais de 90% dos computadores do governo
federal. O processo de pechincha em andamento pode poupar mais de R$ 100 milhões aos cofres públicos.
O trabalho também envolve a conscientização
dos administradores. Até o governo anterior, eram comuns licitações que, na descrição do computador a ser comprado, exigiam um determinado sistema operacional ou
programa. "Não é proibição. É uma questão de seguir a lei. Se existem alternativas no mercado, precisamos garantir a concorrência", explica o secretário-adjunto da SLTI,
Rodrigo Assunção. Ele também foi um dos responsáveis pela experiência paulistana de inclusão digital, na coordenação do projeto Sampa.org.
Fonte: Radiobrás
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